Uma greve que derrotou o
jogo imoral dos patrões

Gente que não produz um prego, apenas lucra com o trabalho de outros. Desde os tempos bíblicos e até os dias de hoje isto é conhecido como mercado da escravidão. Hoje arranjaram um nome moderno para isto: “mercado de mão de obra”.
Mas, como no passado, as condições de vida e de trabalho, o respeito e a violência aos trabalhadores, não se distanciam em tantos séculos. Talvez nem em dias, pois os senhores de escravo e seus sócios (os patrões públicos e privados tomadores de serviço) de hoje insistem em pagar salários indignos, impor jornadas de trabalho dolorosas, roubar direitos e humilhar pessoas.
Esta teoria da humilhação e da descriminação pode ser exemplificada na afirmação em abril último do Secretário de Fazenda da Prefeitura de Salvador: “não posso tirar dinheiro do salário do servidor da Prefeitura para pagar a terceirizado”.
Em março chegamos ao limite das negociações com o patronato que, face a pauta da categoria (inflação + 12% de ganho real, cesta básica para todos os vigilantes, tíquete de 10 reais, plano de saúde e Piso de 1.080), respondeu com 6% de aumento e 15% de redução (no adicional noturno). Pura provocação e tentativa de humilhação.
Foi contra isto e este sistema miserável que fizemos a greve geral dos vigilantes da Bahia.
No final os senhores de escravos tiveram de engolir um reajuste de mais de 9% no salário e no tíquete, ampliação da cesta básica e a manutenção das conquistas anteriores, inclusive o adicional noturno de 35% sobre a hora normal. Além da não punição por motivo de greve e descontos dos dias de parados. O Piso de 600 reias continua muito pouco diante do que recebe uma empresa de segurança por cada um de nós (3.000 a 4.000 reais).

Ainda não ganhamos a guerra, mas o sistema perdeu uma batalha. A batalha de 2009 foi ganha pelos escravos. Seguindo em frente vamos ganhar a guerra!

VIGILANTES MOSTRARAM O SEU VALOR
Bancos, agências do INSS, postos de saúde, escolas, teatros, bibliotecas publicas não abriram durante a nossa greve. Estão reconhecendo o nosso valor?
Com certeza que sim. E, se alguém tinha duvida da nossa importância na vida das nossas cidades, do nosso estado e do país, não há como pensar na segurança e defesa da vida sem os vigilantes.


MESMO EM CAMPANHA NA BAHIA A LUTA
NÃO PAROU RM BRASÍLIA PELO RISCO/PERICULOSIDADE
Em outubro passado a Bahia teve participação ativa na Marcha Nacional dos Vigilantes que conseguiu a aprovação no Senado Federal do Projeto de Lei – PL 4436/2008 da Senadora Serys Slhessarenko (PT/MT), que institui a Periculosidade de 30% para os vigilantes. Este PL dependente agora de votação na Câmara dos Deputados para ir a sanção do Presidente Lula e virar lei, igual a dos bombeiros civis.
Mas na Câmara tramita outro PL, o 1033/2003, de autoria da Deputada Vanessa Graziotin (PCdoB/AM), com adendo do Deputado Nelson Pelegrino (PT/BA) também instituindo os 30% de periculosidade para os vigilantes. Este projeto foi engavetado em novembro por um Deputado patrão do Mato Grosso do Sul, mas voltou a pauta da Câmara e com a pressão das lideranças sindicais da categoria e apoio dos Deputados comprometidos com a luta dos trabalhadores o PL foi aprovado pela CCJ - Comissão de Constituição e Justiça no dia 14 de abril passado, ficando de ser encaminhado para votação no Senado.
E mesmo sem se afastar um minuto dos momentos mais importantes da luta na Bahia o Presidente do Sindvigilantes e da CNTV José Boaventura e outras lideranças dos vigilantes foram recebidos pelo Presidente do Congresso José Sarney, que prometeu apoio ao nosso adicional. Mas os Deputados patrões começaram a reagir e já está marcada para 07 e 08 de julho a 2ª. Marcha à Brasília. Fique ligado. Em breve sai a lista dos Deputados e e-mail’s para que você cobre dele o voto e apoio aos nossos projetos.


EM CAMAÇARI E RMS O
SINDMETROPOLITANO CUIDOU DA LUTA
As ruas de Camaçari também foram ocupadas pelos vigilantes entre os dias 24 a 30 de março, numa retomada de lutas que fez deste importante pólo operário um berço da retomada da organização sindical pós ditadura militar. A mobilização do Sindicato na área industrial garantiu uma participação significativa dos vigilantes das principais empresas que atuam por lá: (GPS, Guardesecure, MF, MAP, Multiserv, etc. “
A demonstração de unidade dos vigilantes de todos os setores, os bancos e área industrial de Camaçari, Alagoinhas, Candeias, Santo Antonio de Jesus e outras cidades da região foi uma amostra do que somos capazes unidos, conscientes e confiantes na condução certa das direções sindicais comprometidas com os trabalhadores”, disse Geraldo Cruz Presidente do Sindmetropolitano – Sindicato dos Vigilantes de Camaçari e RMS.


O PATRONATO TENTOU USAR A JUSTIÇA PAR AIMPEDIR A DIRETO A GREVE
Ação Inibitória. Este foi o nome técnico utilizado por várias empresas e pelo Sindicato patronal para tentar impedir o direito sagrado à greve. GPS, MF e Nordeste foram as que saíram na frente nesta tentação. Na ação do Sindicato patronal veja o que a juíza da 10a. Vara do Trabalho falou, negando a vontade deles: “... os transtornos causados pelo movimento paredista (congestionamentos, barulhos com apitos, uso de carro de som, mobilizações convidando os vigilantes a aderirem nas portas dos bancos) são absolutamente normais EM UMA DEMOCRACIA, não podendo proibir os Sindicatos de Trabalhadores de tentar convencer seus integrantes à paralização.” “acolhesse as pretensos do Sindicato Patronal, só serviria para aniquilar o próprio direito de greve dos trabalhadores”.
E disse mais: “Este Juízo não pode ser utilizado como instrumento de manobra pra dificultar as pretensões dos Obreiros em tentar pressionar seus empregadores, e por vias legalmente permitidas e sem abusos, a melhorar as condições já ofertadas na fase de negociação de instrumento coletivo.
Não servirá o judiciário de ferramenta de eliminação dos naturais transtornos conseqüentes do movimento paredista, o que resultaria na extinção da greve por via transversa. Consoante pertinente analise do professor Roger Blanpain, “sem o poder de fazer greve, a negociação coletiva se transforma em mendicância coletiva.”
A nossa luta também permite enxergar que ainda temos um sopro de justiça neste país. Viva a Greve!


LANCES IMPORTANTES DA NOSSA GREVE
- A ultima greve geral dos vigilantes aconteceu em 2001, mas junto com as policias. Quase 8 anos depois a greve só dos vigilantes parou meia Bahia.
- As manifestações da categoria nunca juntaram tanta gente como as de março. Teve dia de termos quase 5000 vigilantes nas ruas.
- O Comércio, o Túnel pararam. O bonocó nunca tinha sido fechado por uma categoria. Deste vez ocupamos a cidade.
- No extremo sul, principalmente Teixeira de Freitas, Itamaraju, Eunapolis, os vigilantes ocuparam as ruas e tiveram o apoio e o respeito da população.
- Nestas cidades do Extremo Sul o Sindicato dos Bancários de lá, a exemplo do de São Paulo na greve do ano passado, deu o maior apoio, esteve sempre junto dos vigilantes e não deixou nenhuma agência funcionar sem o quadro de vigilantes completo, como manda a lei.
- Em Ipiaú e Jequié há muito tempo as pessoas não viam uma mobilização de trabalhadores tão significativa.
- Em Bom Jesus da Lapa e Vitória da Conquista postos do INSS, Bancos e muita coisa deixou de funcionar sem vigilantes.
No pólo petroquímico teve empresa fazendo malabarismo e fura greve indo trabalhar de táxi especial. Mas nada adiantou e o bicho pegou no pólo e área industrial da RMS.


ITABUNA
VIGILANTES UNIDOS E TUDO FECHADO
Em Itabuna o Sindicato co-irmão local cuidou da paralização e os colegas marcaram um tento importante na luta. Com bancos fechados o comercio começou a reclamar da falta de dinheiro e a pressionar os bancos e empresas para atenderem as reivindicações da categoria. As passeatas e mobilizações ocuparam a avenida cinqüentenário, a principal via de comercial da cidade. “Os vigilantes entenderam que não podiam mais aceitar calados a humilhação patronal. A greve era como o grito sufocado contra tudo isto, mesmo sabendo que não resolveríamos tudo numa greve só. Vencemos a batalha”, disse Luiz Alves Presidente do Sindicato dos Vigilantes de Itabuna.


COM A LICENÇA DO MESTRE PORTUGAL
“VIVA A JOAQUIM”
(PARA LER, DISCUTIR EM CASA, NA ESCOLA, NO TRABALHO...)
“SUPREMO MINISTRO”
“Naquele 22 de abril de 2009, nenhum nobre navegante português ousaria nos “descobrir”. Descobertos fomos pelos olhos e pela voz do primeiro negro que , com altivez e coragem, no topo da nau capitania do judiciário, admoestou o pretenso comandante.
Naquele 22 de abril de 2009, não caberia um 7 de setembro em que o filho do rei, futuro imperador do país, daria gritos de independência às margens de um riacho qualquer; ali, ouvimos o brado da liberdade e da insubmissão da voz abafada do povo, silenciada por séculos pelos donos do poder, através de sucessivos crimes de lesa-cidadania: “Respeite,ministro! Vossa Excelência não tem condições de dar lição de moral em ninguém!”
Naquele 22 de abril de 2009, nenhuma princesa “bondosa” assinaria uma vaga lei que nos concedia liberdade, mas nos cassava a condição de cidadãos, proibindo-os o voto, a escola de qualidade e o trabalho digno; presenciamos, sim, a abolição proclamada em nossas almas, 121 anos depois, pela voz corajosa de um Luiz Gama redivivo, encarnando todos os quilombos massacrados e abrindo os portões de todas as senzalas: “Vossa Excelência não está nas ruas; está na mídia destruindo a credibilidade de nossa justiça!”
Naquele 22 de abril de 2009, nenhum marechal, de pijama, ousaria proclamar república nenhuma; o pacto de poder que condenou a maioria de nossa gente a ser um povo de segunda classe viu-se desmascarado pela indignação patriótica de um João Cândido reeditado, que fez a chibata girar em movimento contrario, açoitando o lombo dos que se acostumaram a bater, pó séculos a fio: “Respeite, ministro! Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso!”
Naquele dia, Ogum, Xangô e Oxóssi desceram os três num corpo só e reafirmaram a presença arquitípica da África dentro de nós. Todos os movimentos aparentemente derrotados dos nossos heróis anônimos pusera-se de pé, vitoriosos, mesmo que não tivessem vencido uma só batalha. A Revolta dos Búzios, a Revolução dos Malês, o Quilombo dos Palmares, todos, reencenaram seus teatros de operações e puderam, séculos depois, derrotar simbolicamente o inimigo.
Naquele dia, saíram às ruas todas as escolas de samba, de jongo, todos os blocos afros; bateram os candomblés e as giras de umbanda, a procissão da Boa Morte, o Bembé do Mercado de Santo Amaro; brilharam os pequenos olhos da criança negra recém-nascida ao descortinar a luz azul de um futuro melhor.
Naquele dia, materializando todos os nossos sonhos e desejos secularmente negados, Vossa Excelência deixou de ser apenas um ministro do Supremo Tribunal Federal para tornar-se o supremo ministro de todos os brasileiros’’.
(Jorge Portugal. Educador, Poeta- Artigo publicado no Jornal ATARDE 28/04/09)